O projeto
Em alguma parte do planeta, duas Barbies eram compradas por segundo em 2004, como apontou a jornalista M. G. Lord, em seu livro Forever Barbie – The unauthorized biography of a real doll. De seu lançamento, em 1959, até hoje, a boneca converteu-se em modelo de comportamento e elegância feminina, imbuída de uma carga simbólica avassaladora.
A indústria cultural que a sustenta - assim como suas similares, a veterana Susi, a Polly ou as princesas da Disney – incutiu na cabeça das crianças (meninas e meninos) a fábula de que, para se tornar mulher, é fundamental que a menina obtenha sempre novas roupas, sapatos, acessórios, casas, móveis, imóveis, outros bonecos, um mundo inteiro, enfim, que compre uma vida inteira.
Porém, quando todos os acessórios de moda são suprimidos, e a boneca finalmente fica nua, revela-se o paradoxo essencial: a boneca é a representação de uma mulher assexuada, já que não há nenhum sinal de vulva entre suas pernas.
Ao conceber uma coleção de vaginas imaginárias para a Barbie, o projeto idealiza uma cura simbólica para a boneca mutilada, assim como para suas donas, meninas românticas, que crescem sequestradas por um modelo superficial de feminilidade, tendo seus próprios corpos tratados como cabides, destinados a pendurar os acessórios que comprem ou ganhem.
Em 2016 a Mattel lançou uma nova coleção cujo mote publicitário celebrava: “O mundo da Barbie está evoluindo!”. Fagocitando conceitos de pluralidade e inclusão, por meio de discretas adequações em traços faciais e capilares das bonecas, a Barbie “evoluída” conquistou ávidas consumidoras mirins de todas as cores e tipos de cabelos, concedendo um naco de representatividade, desde que seus pais pagassem um pouquinho a mais por isso.
Esse mesmo padrão limitado de representatividade se deu em relação aos novos tamanhos das bonecas, agora, apresentadas em manequins com biótipos diferentes do esquelético habitual, com bonecas de tamanho curvy (que não é gorda, somente curvilínea), tall (alta) e petite (de baixa estatura), que obviamente necessitariam de roupinhas “fora do padrão”. Na coleção atual há até a menção sutil a uma Barbie que poderia ser interpretada como lésbica, com cabelos curtíssimos e trajes unissex, e um Ken queer, item de série da coleção Barbie Signature, com tiragem limitada e bem mais caro.
Já o tema de inclusão de pessoas com deficiência (PCD), utilizado pela marca, se concretizou com o lançamento de exemplares com prótese na perna, cadeirantes e até mesmo por uma boneca sem cabelos que, ironicamente, era mais cara do que a Barbie-padrão, com sua farta cabeleira loura.
Porém a contradição original desse ícone do gênero feminino persiste: o vazio entre as pernas continua lá, e a boneca continua castrada. A bela Barbie, cujo rosto é cheio de detalhes, com narizinho e boca delicadíssimos, olhos cuidadosamente maquiados e uma orelha minuciosamente reproduzida com todas as suas dobrinhas, é sustentada por um corpo anódino, com fartos seios sem vestígios de mamilos, e cujo vazio da pelve foi preenchido por uma calcinha grudada à pele, como um cinto de castidade rendado que apaga qualquer sinal de púbis ou vulva.
Toy Pussy traz portanto uma provocação, ao denunciar a persistente falta de vagina da boneca, e canibalizando a estratégia marqueteira adotada pela Mattel: propõe uma nova coleção “Toy Pussy All Inclusive” que discuta a autenticidade desses vôos da marca por ventos democráticos, restritos a quem puder pagar pelo bilhete de embarque. Além disso, mira o clichê tão difundido na cultura contemporânea, da Meritocracia, apresentando as "Dream Pussies” referenciadas no atual mote da marca: #VocêPodeSerTudoQueQuiser.
Também levando em conta a força-motriz do consumo desenfreado, essencial à marca Barbie, este projeto apropria-se da noção de eterna mudança para vender mais do mesmo, expandindo sua coleção e deixando sempre uma abertura conceitual no horizonte para a criação de novas vaginas-brinquedo.
Esse trabalho não está voltado exatamente a um público infantil, mas foi concebido por causa das crianças, em função da maneira como elas vêm sendo socializadas, trazendo uma reflexão acerca dos papéis sexuais incutidos por uma cultura que lhes subtrai uma consciência saudável da própria sexualidade, tratada como tabu, ao mesmo tempo em que as hiperssexualiza, tornando-as vulneráveis a toda forma de abuso.
Toy Pussy propõe um contraponto a uma cultura dominante que incute padrões rígidos de beleza, especialmente às mulheres, para que estas se convertam em “corpos obedientes”, como diria Naomi Wolff no livro “O Mito da Beleza”, alguém que “se esfomeia para estar na moda e conserva sua visibilidade através de constantes correções cirúrgicas”.
Eis que em 2023, durante a execução deste projeto, a Mattel adotou uma nova estratégia mercadológica de “propriedade intelectual para o cinema”, lançando Barbie the Movie, mais uma vez absorvendo críticas à boneca, e aceitando o humor autodepreciativo. No filme, finalmente é apontada de maneira crítica a assexualidade da boneca.
A iniciativa, ainda que voltada ao faturamento da empresa, não deixa de ser positiva, em um momento de alarmantes notícias sobre o crescimento exponencial de cirurgias plásticas de “correção” estética do órgão genital feminino, as vaginoplastias, labioplastias e ninfoplastias, objetivando a aquisição de uma vagina “delicada como a da Barbie”, essa tal boneca que não tem vagina.
Ficha Técnica
Coordenação Geral – Viviane Cardell
Produção Executiva - Radioclip Produções
Criação de objetos e Direção de Arte – Viviane Cardell
Direção artística e musical – Fernanda Cabral
Roteiro e áudios – Viviane Cardell
Locução e interpretação – Clarice Cardell, André Amahro, Fernanda Cabral e Glória Cardell
Direção de Imagem – Moacir Macedo
Direção de Fotografia – Thiago Araújo
Desenvolvimento Web – Moacir Macedo
Audiodescrição – Contorno Audio e Vídeo
Gestão e mídias sociais – Five Com. e Marketing
Assessoria de imprensa – Território Cultural
Este projeto foi realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF